Clarice Lispector tinha o dom de transfigurar o cotidiano através das palavras e generosamente partilhava as suas visões com os leitores. Em suas crônicas discorre sobre amor, amizade, infância, morte, literatura, viagens, maternidade, vida doméstica. O leitor é levado muitas vezes a experimentar as mesmas sensações da cronista, esta lhe propõe um jogo onde não há limites para as descobertas, sempre intensas e renovadoras. Suas observações do cotidiano são envolvidas por um clima mágico e poético. As palavras de uma amiga, a morte de uma baleia, o cansaço de tudo, os prazeres de uma vida normal; tudo faz parte da perigosa aventura de viver. O que significa receber um presente? Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? Clarice toma conta do mundo. Nada escapa ao seu olhar atento. A cozinheira feliz, os segredos de um motorista de táxi, o homem na Lua. Nas crônicas ela passa a sua vida a limpo, particularmente nos textos autobiográficos sobre a infância em Recife. Paradoxalmente, lado a lado com o desejo de defender a própria intimidade, há em Clarice o desejo intenso de se confessar em público: “O desejo de enfim dizer o que nós todos sabemos e, no entanto, mantemos em segredo como se fosse proibido dizer às crianças que Papai Noel não existe, embora sabendo que elas já sabem que não existe.” “O JB está me tornando popular”, constata Clarice. A coluna semanal no Jornal do Brasil, onde suas crônicas foram publicadas entre agosto de 1967 e dezembro de 1973, foi determinante para ampliar o público da romancista; nesta também publicava trechos de livros em gestação na época como Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres e Água viva, além de contos e textos curtos de A legião estrangeira, já editado em 1964. A partir desta experiência, Clarice passou a publicar suas crônicas nos jornais Correio do Povo e Última Hora. Quando se indagou, certa vez, sobre o que significava escrever para jornal e escrever livro dizia valorizar mais o que escrevia nos livros, pois tinha medo de ao escrever muito corromper a palavra, o que não a impediu de escrever com gosto para o leitor de jornal e sem deixar de amá-lo. Em sua coluna no JB há vários momentos onde se percebe como seu coração foi permanentemente aquecido pelo carinho dos que se manifestavam através das cartas, telefonemas e presentes. Ana Luísa deu-lhe um polvo; Maria, chorando ao telefone, disse-lhe: “por que você escreveu dizendo que não ia mais escrever romances?” Outra leitora pediu-lhe que não deixasse a sua coluna sob o pretexto de que pretendia defender a sua intimidade. E havia quem lhe telefonasse para dizer: “Quero que você seja feliz.” E Clarice revelava que era uma cronista feliz. “Escrevi nove livros que fizeram muitas pessoas me amar de longe. Mas ser cronista tem um mistério que não entendo: é que os cronistas do Rio são muito amados. E escrever a espécie de crônica aos sábados tem me trazido mais amor ainda.”“Sinto-me perto de quem me lê. O contato com o outro ser através da palavra escrita é uma glória.”A necessidade de estabelecer uma forma de comunicação com o mundo a movia em direção à palavra. “Escrever é um divinizador do ser humano.” Nas crônicas, Clarice dizia aos leitores o quanto amava quem tinha paciência de esperar por ela, por sua voz através da palavra escrita. Escrever também era uma maneira de se doar aos outros, de propiciar o contato com a própria tessitura do viver. Ao ser indagada por que escrevia, respondeu: “E eu sei? Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar, de um modo ou de outro, não é?” É isto que as crônicas do JB,eternizadas no livro A descoberta do mundo há 25 anos, têm propiciado aos seus leitores.Teresa Montero é doutora em Letras pela PUC-Rio

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